O filme A Pior Pessoa do Mundo (2021), dirigido por Joachim Trier, tornou-se um retrato sensível e incômodo da experiência emocional contemporânea. Longe de oferecer respostas fáceis, a narrativa acompanha Julie, uma jovem adulta que atravessa dúvidas existenciais, mudanças de rumo e relações afetivas complexas enquanto tenta compreender quem é — e quem pode vir a ser.
Do ponto de vista psicológico, o filme não fala sobre “imaturidade” no sentido raso do termo, mas sobre o impacto emocional de viver em um mundo repleto de possibilidades, expectativas e pressões internas.
Julie e a busca por identidade
Julie é apresentada como alguém que muda de interesses, cursos, carreiras e relações. À primeira vista, pode parecer indecisa ou impulsiva. Mas, psicologicamente, seu comportamento revela algo mais profundo:
uma identidade ainda em formação, marcada pela ansiedade de escolher quem ser em um tempo que cobra definições precoces.
Na psicologia do desenvolvimento, a construção da identidade adulta não acontece de forma linear. Ela envolve experimentação, frustração, revisões internas e, muitas vezes, luto pelas versões de si que não se sustentam. Julie vive exatamente esse processo — com dor, ambivalência e medo de errar.
Aspectos emocionais: ansiedade, vazio e medo do tempo
Um dos afetos mais presentes no filme é a ansiedade existencial. Julie sente que o tempo passa rápido demais e que suas escolhas precisam ser “certas”, definitivas, quase irreversíveis.
Esse estado emocional se manifesta em:
- medo de se comprometer plenamente;
- sensação de estar sempre atrasada em relação à vida;
- angústia diante da ideia de estabilidade;
- dificuldade de sustentar decisões quando surgem dúvidas.
Não se trata apenas de ansiedade comum, mas da angústia que surge quando liberdade e responsabilidade caminham juntas. Quanto mais possibilidades existem, maior é o medo de perder algo ao escolher.
Padrões de pensamento que sustentam o sofrimento
Julie apresenta padrões cognitivos bastante comuns na clínica contemporânea, especialmente entre mulheres jovens adultas:
- Pensamento dicotômico: a sensação de que uma escolha errada invalida todo o caminho.
- Idealização do futuro: a crença de que a satisfação plena está sempre em outro lugar, em outra versão de si.
- Autocrítica silenciosa: mesmo sem se acusar explicitamente, Julie se cobra constantemente por “não estar onde deveria”.
Esses padrões alimentam a insatisfação crônica e dificultam a experiência de presença no aqui e agora.
Relacionamentos como espelho emocional
Os vínculos amorosos de Julie não são apenas histórias paralelas; eles funcionam como espelhos de suas necessidades emocionais e conflitos internos.
Com Aksel, há estabilidade, admiração e segurança — mas também o medo de se perder de si mesma.
Com Eivind, há leveza, novidade e identificação — mas também evasão e indefinição.
Psicologicamente, isso revela um conflito clássico:
o desejo simultâneo por segurança emocional e liberdade psíquica. Julie não foge do amor; ela foge da sensação de aprisionamento identitário.
Comportamentos impulsivos: fuga ou tentativa de regulação?
As mudanças repentinas de Julie — de carreira, de relação, de planos — podem ser compreendidas como tentativas de regulação emocional. Quando a angústia cresce, a ação surge como alívio temporário.
Esse tipo de comportamento não indica falta de caráter ou superficialidade, mas dificuldade de tolerar estados emocionais ambíguos, como dúvida, frustração e incerteza. Agir, nesse contexto, é uma forma de silenciar o desconforto interno.
Mudança e amadurecimento: um crescimento possível, não idealizado
O amadurecimento de Julie não acontece por meio de grandes revelações ou finais redentores. Ele surge de forma mais realista — pela perda, pelo reconhecimento das limitações e pela aceitação de que toda escolha envolve renúncia.
Há um momento crucial em que Julie parece compreender que:
- não é possível viver todas as versões de si;
- crescer implica suportar frustrações;
- identidade não é algo a ser encontrado, mas construído com o tempo.
Essa compreensão não elimina a dor, mas a torna mais integrada.
O que podemos aprender com Julie?
A personagem principal de A Pior Pessoa do Mundo nos ensina que:
- a confusão não é fracasso, é parte do processo;
- mudar de ideia não invalida quem fomos;
- amadurecer não significa ter certeza de tudo, mas assumir responsabilidade pelo que escolhemos;
- o sofrimento aumenta quando tentamos viver sem limites ou sem perdas.
Julie não é a pior pessoa do mundo.
Ela é um retrato honesto da experiência humana em um tempo que exige desempenho, felicidade e coerência constantes — mesmo quando estamos em construção.
Considerações finais
Do ponto de vista psicológico, o filme é um convite à autocompaixão e à reflexão. Ele nos lembra que a vida adulta não é um estado de chegada, mas um processo contínuo de ajuste interno entre desejos, valores, perdas e escolhas possíveis.
Talvez o maior aprendizado seja este:
não precisamos nos definir completamente para sermos legítimos. Às vezes, estar em processo já é, em si, uma forma de maturidade.
Um abraço,
Suzanne
🎁 Materiais Gratuitos
Calendário Motivacional
Setembro Amarelo
Outubro Rosa
Palestras Saúde Mental: Empresas, Hospitais e Escolas
Modelo de Prontuário Psicológico e Encaminhamento ao Psiquiatra
Superando o Vício em Jogos
Exercícios para Regulação Emocional
Modelo de Contrato Terapêutico Infantil
Aula Regulação Emocional
Guia para Lidar com a Tristeza
Como Praticar a Autocompaixão
Hábitos para Viver Melhor
Questionamentos para Identificar Distorções Cognitivas
Mude sua História
Pensamentos Ruminativos: Como Lidar
Caderno Minha Terapia
Agenda Planejamento Terapêutico
Dia da Mulher Recursos
Quando ciclos se encerram
Como Tomar Decisões Difíceis
Recursos para TDAH adulto
Perguntas Para Quando Se Sentir Paralisado
Aula Dor Crônica
Roteiro Pensamento Socrático
O Medo de Não Ser Suficiente
Por que Minha Vida Parece Não Sair do Lugar
Reescreva Sua História
Perguntas Para Quando Se Sentir Perdido
O que Fazer Quando Coisas e Pessoas Perderem o Sentido
Primeiros Socorros para Ansiedade
Depressão – A Carta Que Nunca Escrevi
Luto – Carta Para Quem Nunca Foi Embora
Suicídio – Diálogo Com a Vida: Um Espaço Seguro Para Ficar
Planner Seja Protagonista da Sua Vida
Guia de Comunicação Terapêutica
Reconstruir-se – Um Guia Prático e Emocional para Superar o Término de um Relacionamento
Escrita Terapêutica – A Cura pelas Palavras
Caixa de Transformações – Autoconhecimento
Museu da Mulher Interior
Roteiro de Vida Não Escrita
Procrastinação
Maternidade: um encontro com a mãe que há em mim
Dependência Emocional: o dia que eu me escolhi
Encerramentos e Recomeços – Atividades para Reflexões de Fim de Ano
Guia para Resoluções de Ano Novo
Comunicação de Notícias Difíceis Aula
Introdução à Psico-Oncologia
Como Melhorar sua Inteligência Emocional
A Mulher que Retorna a Si
Palestra Janeiro Branco e Guia Janeiro Branco
O Que Fazer Quando Me Sentir Travado
Reconhecendo e Transformando Padrões de Vício Emocional
Não conseguiu baixar? Envie um e-mail para suzannelealpsi@gmail.com

