O trabalho do psicólogo com pacientes oncológicos: peculiaridades, desafios e humanidade em meio ao sofrimento

A atuação do psicólogo com pessoas que enfrentam o câncer é uma das experiências mais singulares e sensíveis da Psicologia da Saúde. Diferente de outros contextos clínicos, o cuidado em oncologia convida o profissional a estar diante da dor humana em sua expressão mais complexa: o medo, a incerteza, a ameaça à vida, a transformação corporal, as perdas simbólicas e reais, o luto e, por vezes, a morte.

Não se trata apenas de tratar sintomas emocionais. Trata-se de acompanhar existências atravessadas pela possibilidade de finitude, reorganização de papéis e reconstrução de sentido. É ser presença quando palavras falham e quando silêncio também comunica.

As peculiaridades do trabalho em Psico-oncologia

O psicólogo oncológico atua em um território onde:

  • ciência e humanidade se encontram
  • tempo e urgência não são conceitos abstratos
  • dor física e dor emocional se entrelaçam
  • a família é parte do processo
  • decisões éticas fazem parte da rotina

No ambiente hospitalar ou ambulatorial, o profissional se depara com:

  • comunicação de diagnósticos difíceis
  • manejo de efeitos colaterais e mutilações
  • expectativas incertas diante do tratamento
  • recidivas e remissões
  • elaboração de perdas
  • luto antecipatório

É um cuidado que exige escuta acolhedora, linguagem acessível, sensibilidade cultural e respeito profundo à singularidade de cada história.

O impacto emocional sobre o psicólogo

A convivência contínua com o sofrimento pode despertar no profissional:

  • medo da morte
  • identificação com o paciente ou família
  • impotência diante da dor
  • exaustão emocional
  • culpa e dúvidas éticas
  • tentativas inconscientes de distanciamento

É essencial reconhecer que tais reações não significam fraqueza — significam humanidade. O psicólogo é atravessado pelo encontro com o outro, e isso não pode ser ignorado.

Como superar (ou acolher) dificuldades pessoais

Não é possível trabalhar em oncologia sem desenvolver:

1. Autoconsciência emocional
Reconhecer limites, medos e frustrações.
Nomear o que afeta é um ato de coragem, não de incompetência.

2. Supervisão e apoio institucional
Momentos para refletir sobre casos, decisões e impactos emocionais.
Compartilhar não apenas técnicas, mas também angústias.

3. Educação continuada
Conhecer o câncer, seus tratamentos, fases e repercussões.
A técnica fortalece a segurança emocional.

4. Cuidado de si
Rotinas de descanso, lazer, vínculos afetivos e espiritualidade.
Profissional exaurido não sustenta cuidado ético.

5. Respeito ao silêncio e à vulnerabilidade própria
Nem sempre haverá respostas.
Às vezes, a presença já é cuidado suficiente.

A morte como presença simbólica

Na oncologia, a morte não é tabu — é possibilidade.
Para o psicólogo, isso exige:

  • compreender o luto antecipatório
  • acolher sem dramatizar
  • aceitar limites terapêuticos
  • diferenciar cura e cuidado

Quando não há possibilidade de cura, permanece a possibilidade de conforto, vínculo, dignidade, sentido e amor.
O trabalho do psicólogo não termina com a cura — nem desaparece diante da morte.

O privilégio e o peso dessa atuação

Estar ao lado de alguém em seu momento mais vulnerável é um exercício de ética e humanidade.

O psicólogo pode:

  • aliviar dor emocional
  • favorecer esperança realista
  • apoiar decisões difíceis
  • fortalecer vínculos familiares
  • sustentar dignidade no processo de morrer
  • acompanhar família no luto

E, nesse percurso, aprende sobre a própria vida.

Conclusão

A psico-oncologia não é apenas uma área de atuação: é um encontro.
Entre fragilidade e força.
Entre finitude e sentido.
Entre técnica e cuidado.
Entre o olhar clínico e o olhar humano.

O psicólogo que escolhe esse caminho não deve buscar ser imune à dor, mas capaz de acolhê-la sem sucumbir a ela.

E isso se constrói com supervisão, estudo, autocuidado e, acima de tudo, sensibilidade.


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Que o cuidado em saúde siga sempre comprometido com a vida — inclusive quando ela está prestes a se despedir.

Um abraço,
Suzanne

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Publicado por Suzanne Leal

Psicóloga. Site: suzannelealpsi.com Instagram: @suzannelealpsi

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