Se eu pudesse sentar ao lado de uma mãe que sente que se perdeu de si mesma ao longo da maternidade, a primeira coisa que eu diria é: eu acredito no seu cansaço.
Acredito naquele cansaço que não aparece apenas no corpo, mas também na mente e no coração. Acredito nos dias em que você se sente sobrecarregada, mesmo amando profundamente seus filhos. Acredito nas noites em que você se pergunta quando foi a última vez que fez algo apenas por você. Acredito na culpa que surge quando sente necessidade de descansar. E acredito na solidão que muitas vezes acompanha uma experiência que o mundo insiste em retratar apenas como felicidade.
A maternidade pode ser uma das experiências mais significativas da vida de uma mulher, mas também pode ser uma das mais exigentes. Existe uma transformação profunda que acontece quando um filho chega. Não nasce apenas uma criança. Nasce também uma mãe. E, nesse processo, muitas mulheres se veem tentando equilibrar uma nova identidade sem terem tempo suficiente para compreender tudo o que está mudando dentro delas.
Pouco a pouco, a rotina passa a girar em torno das necessidades dos filhos. Os horários mudam. As prioridades mudam. As preocupações mudam. E, muitas vezes, a mulher começa a acreditar que cuidar de si mesma é algo que pode esperar. Primeiro por alguns meses. Depois por alguns anos. Até que chega um momento em que ela já não sabe mais responder perguntas simples como: “O que eu gosto de fazer?”, “O que me faz bem?” ou “Quem eu sou além da maternidade?”.
E isso não acontece porque ela deixou de existir. Acontece porque dedicou tanto tempo e energia ao cuidado dos outros que acabou se afastando da própria história.
Talvez você tenha se acostumado a ser chamada apenas de mãe. Talvez tenha deixado de lado sonhos, projetos, amizades ou partes importantes da sua identidade. Talvez exista uma sensação de culpa sempre que pensa em suas próprias necessidades. Talvez você sinta saudade de quem era antes e, ao mesmo tempo, culpa por sentir essa saudade.
Mas eu gostaria que você soubesse uma coisa importante: sentir falta de si mesma não significa amar menos seus filhos.
Sentir necessidade de espaço, descanso, individualidade e autocuidado não diminui a qualidade do seu amor materno. Pelo contrário. Mulheres emocionalmente cuidadas costumam ter mais recursos internos para cuidar dos outros sem se esgotarem completamente.
A recuperação da conexão consigo mesma não acontece de uma vez. Ela costuma começar através de pequenos movimentos. Um momento de pausa. Um limite saudável. Uma atividade que lhe dá prazer. Uma conversa sincera. Um espaço em que você possa existir sem precisar cuidar de ninguém por alguns instantes.
Um exercício simples pode ajudá-la a iniciar essa reconexão. Reserve alguns minutos e escreva duas listas. Na primeira, escreva tudo aquilo que ocupa seu tempo e sua energia atualmente. Na segunda, escreva tudo aquilo que costumava fazer você se sentir viva, conectada consigo mesma e feliz antes de a maternidade ocupar todo o espaço disponível. Depois observe as duas listas com carinho. Pergunte-se: “Existe algo da segunda lista que eu poderia trazer de volta para minha vida, mesmo que em pequenas doses?”. Às vezes a reconexão não começa com grandes mudanças. Ela começa quando uma mulher se autoriza a existir novamente como pessoa, além do papel de mãe.
A verdade é que você continua existindo aí dentro. A mulher que tinha sonhos, desejos, talentos, opiniões, gostos e necessidades não desapareceu. Talvez esteja cansada. Talvez esteja escondida sob camadas de responsabilidade e dedicação. Mas ela continua ali.
E talvez uma das formas mais bonitas de cuidar dos seus filhos seja também permitir que eles cresçam vendo uma mãe que não abandonou completamente a si mesma no caminho.
Se você é mãe ou profissional que acompanha mulheres nesse período tão delicado da vida, conheça os Recursos Terapêuticos para Maternidade e Perinatalidade. O material foi desenvolvido para promover reflexão, acolhimento emocional e apoio às diversas vivências que acompanham a gestação, o pós-parto e a construção da identidade materna.
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Um abraço,
Suzanne

