Recomeçar Não Significa Voltar a Ser Quem Você Era

Woman sitting on a green armchair by a large window holding a mug, looking outside thoughtfully

Uma das consequências menos faladas do trauma é que ele não afeta apenas a forma como nos relacionamos com o passado. Ele também modifica nossa capacidade de imaginar o futuro. Muitas pessoas chegam ao consultório acreditando que o sofrimento está concentrado nas lembranças dolorosas, nos acontecimentos que gostariam de apagar ou nas emoções que ainda carregam. Mas existe outra perda que costuma surgir silenciosamente depois de experiências difíceis: a perda da capacidade de sonhar. Após uma traição, um abuso, um luto, uma perda significativa ou qualquer experiência que tenha abalado profundamente a sensação de segurança, algo dentro de nós pode começar a acreditar que não existem mais possibilidades adiante. Não porque a pessoa tenha desistido conscientemente da vida, mas porque o trauma frequentemente restringe nosso olhar ao que é imediato. Quando estamos tentando apenas sobreviver emocionalmente, pensar no amanhã pode parecer um luxo distante.

Do ponto de vista da neurociência, esse fenômeno não é apenas uma sensação subjetiva. Experiências traumáticas provocam alterações temporárias em sistemas cerebrais envolvidos na percepção de segurança, na motivação e na capacidade de antecipar experiências positivas. O cérebro passa a direcionar uma quantidade significativa de energia para monitorar riscos, evitar novas ameaças e manter o organismo protegido. É como se os recursos internos fossem mobilizados para apagar incêndios emocionais constantes. Nesse estado, sonhar, planejar ou visualizar possibilidades futuras deixa de ser prioridade. Muitas pessoas descrevem esse período como uma espécie de congelamento emocional. Continuam cumprindo responsabilidades, trabalhando, cuidando da casa, dos filhos ou de outras pessoas, mas sentem como se algo dentro delas tivesse parado de caminhar.

Talvez uma das mensagens mais importantes que a psicologia possa oferecer seja que a esperança não costuma retornar através de grandes acontecimentos. Raramente ela chega de forma repentina, trazendo respostas definitivas ou transformações radicais. Na maioria das vezes, ela reaparece através de pequenos movimentos quase imperceptíveis. Surge quando alguém volta a sentir curiosidade por algo. Quando se permite fazer planos para o próximo mês. Quando compra um livro que deseja ler. Quando retoma uma atividade abandonada. Quando consegue imaginar que, apesar da dor vivida, ainda existem experiências que merecem ser vividas. São gestos simples, mas que carregam um significado profundo: eles comunicam ao cérebro que a vida não se resume ao trauma.

Existe uma expectativa muito comum de que a recuperação emocional signifique voltar a ser exatamente quem éramos antes da dor. Muitas pessoas passam anos tentando reencontrar uma versão antiga de si mesmas, como se a cura dependesse de recuperar a identidade que existia antes da perda, da violência ou da decepção. Mas a realidade costuma ser diferente. O trauma transforma. Algumas mudanças são dolorosas. Outras, surpreendentemente, podem abrir espaço para novos níveis de consciência, maturidade e autoconhecimento. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “como voltar a ser quem eu era?”, mas sim “quem estou me tornando depois de tudo o que vivi?”. Existe uma diferença profunda entre essas duas perspectivas. Uma tenta recuperar o passado. A outra permite construir futuro.

Um exercício terapêutico muito bonito para esse momento é a chamada Caixinha do Recomeço. A proposta é simples, mas carrega um significado simbólico poderoso. Escolha uma caixa, um envelope, um pote ou até mesmo um caderno. Durante alguns dias ou semanas, escreva pequenos desejos para si mesmo e guarde nesse espaço. Não se preocupe com metas grandiosas. Na verdade, quanto mais honestos e próximos da sua realidade atual, melhor. Talvez você escreva que deseja voltar a sentir tranquilidade, aprender a descansar sem culpa, confiar novamente em sua própria intuição, encontrar mais momentos de leveza ou simplesmente acreditar que o futuro pode ser diferente do presente. Cada papel colocado ali funciona como um lembrete de que existe vida para além daquilo que aconteceu e de que seus desejos continuam merecendo espaço dentro da sua história.

Aos poucos, ao revisitar esses registros, algo começa a mudar. Você percebe que continua desejando. Continua imaginando. Continua construindo possibilidades. E talvez seja justamente aí que o recomeço acontece. Não no momento em que a dor desaparece completamente, mas no instante em que ela deixa de ocupar todo o espaço disponível dentro de você. O trauma pode ter escrito capítulos importantes da sua história, mas ele não precisa ser o autor dos próximos. Enquanto existir dentro de você a capacidade de desejar algo, por menor que pareça, ainda existe movimento. Ainda existe futuro. Ainda existe vida acontecendo para além da ferida.

Referências

Tedeschi, R. G., & Calhoun, L. G. (2004). Posttraumatic Growth: Conceptual Foundations and Empirical Evidence. Psychological Inquiry.

Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma.

Siegel, D. J. (2020). The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are.

Bonanno, G. A. (2021). The End of Trauma: How the New Science of Resilience Is Changing How We Think About PTSD.

Snyder, C. R. (2002). Hope Theory: Rainbows in the Mind. Psychological Inquiry.


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Um abraço,
Suzanne

Publicado por Suzanne Leal

Psicóloga. Site: suzannelealpsi.com Instagram: @suzannelealpsi

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