Quando uma Mulher Perde a Própria Identidade

Person standing at a forked dirt path in a misty field with sunrise and wildflowers

Existe uma pergunta que muitas mulheres fazem em silêncio, geralmente depois de anos cuidando de tudo e de todos: “Em que momento eu deixei de saber quem sou?”

Essa pergunta costuma surgir de forma inesperada. Às vezes aparece depois da maternidade. Outras vezes após um relacionamento longo, uma separação, uma mudança de carreira, o adoecimento de alguém da família ou simplesmente depois de anos vivendo no piloto automático. De repente, aquela mulher que sempre soube exatamente o que precisava fazer percebe que já não sabe responder perguntas simples sobre si mesma. O que gosta? O que deseja? O que sonha para o futuro? O que faz sentido para ela além das responsabilidades que carrega?

A perda de identidade raramente acontece de uma vez. Ela costuma ser um processo gradual. Uma sequência de pequenas renúncias que parecem necessárias naquele momento. Um sonho adiado para depois. Uma necessidade colocada em segundo plano. Um limite que não foi estabelecido. Uma adaptação feita para manter um relacionamento. Um desejo silenciado para evitar conflitos. Quando percebemos, anos se passaram e estamos tão acostumadas a ocupar papéis que deixamos de perceber a pessoa que existe por trás deles.

Muitas mulheres foram ensinadas a observar as necessidades dos outros antes das próprias. Aprenderam a ser cuidadoras, mediadoras, acolhedoras e responsáveis. Essas características podem ser extremamente bonitas e valiosas. O problema surge quando a identidade passa a ser construída exclusivamente em função do que os outros precisam. Nesse cenário, a mulher deixa de ser sujeito da própria história e passa a existir apenas através dos papéis que desempenha. E quando esses papéis mudam, como inevitavelmente acontece ao longo da vida, surge uma sensação profunda de vazio e desorientação.

Do ponto de vista psicológico e neurocientífico, nossa identidade não é algo fixo. O cérebro está constantemente reorganizando a forma como percebemos quem somos. Existe uma rede cerebral conhecida como Default Mode Network (Rede de Modo Padrão), fortemente envolvida em processos de autorreflexão, memória autobiográfica e construção da narrativa que fazemos sobre nossa própria vida. Essa rede participa da integração entre nossas experiências passadas, nossa percepção do presente e a forma como imaginamos o futuro. Em outras palavras, ela ajuda a sustentar a sensação de continuidade do “eu” ao longo do tempo.

Isso significa algo muito importante: a identidade não é um objeto que encontramos uma vez e carregamos para sempre. Ela é uma construção dinâmica, influenciada pelas experiências que vivemos, pelos relacionamentos que construímos e pelas histórias que contamos sobre nós mesmas. A própria ciência mostra que nossa percepção de quem somos está em constante atualização.

Talvez por isso tantas mulheres sofram quando tentam reencontrar a versão que existia dez, quinze ou vinte anos atrás. Porque aquela mulher não existe mais. E isso não é um fracasso. É uma consequência natural do desenvolvimento humano.

O objetivo não é voltar a ser quem você era.

O objetivo é conhecer quem você se tornou.

Existe uma diferença profunda entre sentir saudade de si mesma e precisar retornar ao passado. Muitas vezes, o sofrimento não acontece porque a identidade foi perdida para sempre. Acontece porque continuamos procurando uma versão antiga de nós mesmas, enquanto uma nova identidade está tentando nascer.

Talvez você não seja mais a mulher que sonhava as mesmas coisas aos vinte anos.

Talvez seus valores tenham mudado.

Talvez suas prioridades sejam outras.

Talvez suas dores tenham transformado a forma como você vê o mundo.

E tudo isso faz parte da vida.

O reencontro consigo mesma geralmente não acontece através de grandes descobertas. Ele costuma começar através de pequenos momentos de curiosidade. Quando você se pergunta o que realmente gosta de fazer. Quando volta a ouvir suas opiniões em vez de apenas absorver as dos outros. Quando cria espaços para refletir sobre seus desejos, seus valores e seus projetos pessoais. Quando se permite existir para além das funções que desempenha.

Um exercício simples pode ajudar nesse processo. Reserve um momento tranquilo e escreva três listas. Na primeira, anote os papéis que ocupa atualmente: mãe, filha, profissional, esposa, cuidadora ou quaisquer outros que façam parte da sua vida. Na segunda, escreva características que pertencem exclusivamente a você, independentemente desses papéis. Na terceira, responda à pergunta: “O que desperta curiosidade, interesse ou significado em mim neste momento da vida?”. Observe como as respostas podem ser diferentes daquelas que você daria anos atrás. E tudo bem. O objetivo não é recuperar uma identidade antiga, mas construir intimidade com a pessoa que você é hoje.

Talvez uma das tarefas mais importantes da vida adulta seja justamente essa: permitir que nossa identidade evolua sem interpretar essa transformação como perda. Porque crescer implica mudar. E mudar implica deixar algumas versões de nós para trás.

Você não precisa voltar a ser quem era.

Você pode descobrir quem está se tornando.

Referências

  • Yeshurun, Y., Nguyen, M., & Hasson, U. (2021). The default mode network: where the idiosyncratic self meets the shared social world. Nature Reviews Neuroscience.
  • Buckner, R. L., & DiNicola, L. M. (2019). The brain’s default network: updated anatomy, physiology and evolving insights. Nature Reviews Neuroscience.
  • Davey, C. G., Pujol, J., & Harrison, B. J. (2016). Mapping the self in the brain’s default mode network. NeuroImage.
  • Nature Index. Narrative Identity and Autobiographical Memory.

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Um abraço,
Suzanne

Publicado por Suzanne Leal

Psicóloga. Site: suzannelealpsi.com Instagram: @suzannelealpsi

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