O Que a Série Matéria Escura Nos Ensina Sobre o Peso das Escolhas

A série Matéria Escura se apresenta como uma história sobre universos paralelos, realidades alternativas e diferentes versões de uma mesma vida. Mas, psicologicamente, ela toca em algo muito mais próximo da experiência humana do que a ficção científica pode fazer parecer.

No fundo, a série fala sobre arrependimento.

Fala sobre aquela parte de nós que, em algum momento, olha para a própria vida e se pergunta como tudo teria sido se tivesse feito escolhas diferentes.

Quase todo ser humano já visitou esse lugar mental.

“E se eu tivesse aceitado aquela oportunidade?”

“E se eu tivesse terminado aquele relacionamento antes?”

“E se eu tivesse ficado?”

“E se eu tivesse partido?”

“E se eu tivesse sido mais corajosa?”

A mente humana possui uma dificuldade natural em lidar com as renúncias que acompanham qualquer decisão. Escolher nunca significa apenas ganhar algo. Escolher também significa abrir mão de possibilidades. E, muitas vezes, o sofrimento não nasce daquilo que vivemos, mas daquilo que nunca saberemos como teria sido.

A série explora justamente essa ferida emocional tão humana: a fantasia de que existe uma versão melhor da nossa vida em algum outro lugar.

Talvez em outro relacionamento.

Talvez em outra profissão.

Talvez em outra cidade.

Talvez em uma versão de nós que tomou decisões diferentes.

O problema é que nossa imaginação costuma ser injusta com a realidade.

Quando pensamos nos caminhos que não seguimos, geralmente imaginamos apenas os benefícios. Fantasiamos o amor perfeito que poderíamos ter encontrado. O sucesso profissional que poderíamos ter alcançado. A felicidade que acreditamos que estaria esperando por nós.

Mas raramente imaginamos os sofrimentos daquela vida alternativa.

Não pensamos nas perdas que também existiriam.

Nas inseguranças.

Nas decepções.

Nos medos.

Nos conflitos.

Nas renúncias.

Idealizamos porque a imaginação não precisa lidar com a realidade completa.

E talvez uma das mensagens mais interessantes da série seja justamente essa: toda versão da vida humana carrega algum tipo de dor.

Existe uma tendência cultural de acreditar que o sofrimento é consequência das escolhas erradas. Como se existisse uma combinação perfeita de decisões capaz de nos conduzir a uma existência sem arrependimentos, sem perdas e sem dúvidas.

Mas a vida não funciona assim.

Mesmo as escolhas que fazem sentido trazem desafios.

Mesmo os relacionamentos saudáveis atravessam dificuldades.

Mesmo os sonhos realizados carregam renúncias.

Mesmo as melhores decisões produzem consequências inesperadas.

A maturidade emocional talvez comece quando compreendemos que não existe uma vida completamente livre de sofrimento esperando por nós em outro universo.

Existe apenas a vida real.

Aquela que estamos vivendo agora.

E isso não significa conformismo. Não significa parar de crescer ou deixar de buscar mudanças. Significa reconhecer que a felicidade não nasce da eliminação de todas as possibilidades não escolhidas.

Ela nasce da capacidade de construir significado dentro da realidade que existe.

Um exercício simples inspirado pela reflexão da série pode ajudar quando você se percebe presa aos “e se”.

Pegue uma folha e escreva uma escolha importante da sua vida que ainda desperta dúvidas ou arrependimentos.

Depois responda:

“O que costumo idealizar sobre o caminho que não escolhi?”

Em seguida, faça uma segunda pergunta:

“Quais desafios, perdas ou dificuldades provavelmente também existiriam nesse caminho?”

Por fim, escreva:

“O que construí, aprendi ou desenvolvi graças à vida que escolhi viver?”

Esse exercício não tem como objetivo convencer você de que todas as suas escolhas foram perfeitas. O objetivo é trazer mais equilíbrio para a forma como olha para o passado.

Porque, muitas vezes, não sofremos pelo caminho que seguimos.

Sofremos pela versão idealizada dos caminhos que nunca existiram fora da nossa imaginação.

No final, Matéria Escura nos lembra de algo profundamente humano: sempre haverá um universo possível onde fizemos algo diferente. Sempre haverá uma versão imaginária da vida que poderia ter sido.

Mas a única versão que pode ser amada, transformada, reconstruída e vivida é esta.

A que existe agora.

A que possui falhas, limitações, alegrias, perdas e possibilidades reais.

E talvez a paz não esteja em descobrir qual teria sido a melhor vida.

Talvez esteja em aprender a habitar com mais presença a vida que já é nossa.

Um abraço,
Suzanne

Publicado por Suzanne Leal

Psicóloga. Site: suzannelealpsi.com Instagram: @suzannelealpsi

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