Ser mãe não é só celebrar nas fotos perfeitas ou nos momentos em que tudo parece fluido. Há paisagens internas, territórios emocionais e feridas que permanecem invisíveis para muitos. Quando falamos de maternidade, não falamos só de nascimento, mas também de perda, transformação, ressignificação — e tantas vezes de solidão.
Luto perinatal: a dor que não cabe em palavras
Quando um bebê nasce prematuro, quando uma gestação não vai até o final ou quando um pequeno parte antes de ser visto — tudo isso é luto. O luto perinatal é uma dor atravessada de silêncios, tabus e expectativas sociais que quase não permitem que ela exista. Muitas mulheres e casais carregam uma culpa que não é sua, um silêncio que pesa, uma sensação de falha que sofre por não ter lugar no discurso comum da maternidade.
Reconhecer esse luto significa dar voz ao que se cala: permitir o choro, acolher a solidão, prestar atenção ao vazio que ficou — e oferecer compaixão, para si e para o outro. E isso tem tudo a ver com identidade materna (ou paterna) em construção: quem sou agora, depois dessa perda?
Identidade materna: entre o “antes” e o “depois”
A maternidade transforma. Muitas mulheres falam de um “eu antes” e um “eu depois”. Esse “depois” carrega junto sonhos antigos, expectativas sociais e — não raro — frustrações. A identidade materna não surge pronta: ela se constrói (e desconstrói) no ventre da vida cotidiana, no balanço entre a idealização e o real.
E se a mulher já vivia inseguranças, feridas, crenças negativas sobre seu corpo ou seu valor antes da maternidade, esses elementos podem emergir com força redobrada. Questões como: “serei uma boa mãe?”, “vou conseguir?”, “e se algo der errado?” — muitas vezes ecoam nesse processo.
Mudanças corporais: o corpo que conta histórias
O corpo materno conta memórias — de gravidez, de parto, de amamentação. Ele se modifica, se transforma, carrega marcas físicas e emocionais. E, ao olhar no espelho, tantas mulheres se veem estranhas, distantes de quem eram antes, inseguras com novas formas, cicatrizes, estrias, flacidez.
Esse corpo novo precisa ser reconhecido, não como “algo errado” ou “que precisa consertar”, mas como um corpo que foi capaz: capaz de gerar, nutrir, lutar. Mais do que estética, cuidar desse corpo é aprender a (re)conhecê-lo, a acolhê-lo, a perdoá-lo — e a reconectar-se com ele.
Sobrecarga invisível: além das tarefas diárias
Ser mãe (ou cuidadora) carrega uma sobrecarga que vai muito além das tarefas físicas. Há expectativas emocionais, mentais e psicológicas. Há o trabalho de pensar, organizar, antecipar, reprimir, resistir, produzir — e ainda amar. Muitas vezes, somos exigidas a dar conta de tudo: do bebê, da casa, do parceiro, do trabalho — sem descanso.
Essa sobrecarga pode se manifestar como cansaço crônico, irritabilidade, dificuldades de concentração, sensação de incapacidade. É um terreno fértil para a exaustão mental e para a depressão pós-parto.
Depressão pós-parto: quando a luz perde a cor
A transição para a maternidade não é apenas de amor e alegria: em muitas mulheres, vem também a sombra da depressão pós-parto. Diferente da “tristeza puerperal”, que costuma ser transitória, a depressão é profunda, persistente, muitas vezes silenciosa. Há culpa, vontade de sumir, sensação de inadequação, distanciamento emocional — e tudo isso pode vir junto da vergonha de admitir que “não está bem”.
Romper o silêncio sobre a depressão pós-parto é urgente. Precisamos falar sobre isso com empatia, com acolhimento, com caminhos de intervenção — e com a certeza de que pedir ajuda é coragem, não falha.
Caminhos de acolhimento e reconexão
Em meio às dores, às dissonâncias da maternidade, é possível encontrar caminhos de cura:
- Psicoterapia perinatal: espaços terapêuticos que acolhem a mulher na complexidade de sua experiência materna.
- Grupos de apoio e redes de trocas: saber que outras mulheres vivenciam algo parecido diminui a sensação de solidão.
- Autocuidado radical: pequenas pausas, gestos de amor próprio, presença consigo mesma.
- Expressão simbólica: escrever cartas, desenhos, diário, fotografias — formas de dar forma ao que não cabe em palavras.
- Escuta consciente: parceiros, família, sociedade precisam aprender a escutar sem julgar, sem minimizar.
A maternidade não é um estado puro, linear ou perfeito: é fluxo, é contradição, é construção. E cada mulher merece que sua experiência seja validada, reconhecida e acolhida em sua complexidade.
Se você quiser se aprofundar mais nessas práticas terapêuticas e obter recursos concretos para atuação clínica ou para uso próprio, conheça este material:
Recursos Terapêuticos – Maternidade / Perinatalidade — um e-book reúne entrevistas, avaliações, instrumentos terapêuticos e muito mais para atuantes da maternidade/perinatalidade.
Você pode acessá-lo por aqui:
Recursos Terapêuticos – Maternidade / Perinatalidade
Um abraço,
Suzanne

