Durante muito tempo, o Transtorno do Espectro Autista foi associado quase exclusivamente a características observadas em meninos. Como consequência, muitas mulheres cresceram sem diagnóstico, sem compreensão sobre si mesmas e, principalmente, sem entender por que determinadas experiências pareciam tão difíceis para elas.
Muitas mulheres com TEA passaram anos tentando se adaptar a ambientes, relações e expectativas sociais que exigiam delas um esforço constante de adequação. Aprenderam a observar comportamentos, ensaiar respostas, esconder desconfortos e criar estratégias para parecerem socialmente ajustadas. Por fora, muitas vezes pareciam funcionar bem. Por dentro, frequentemente conviviam com exaustão, ansiedade, sensação de inadequação e solidão.
Uma das dificuldades emocionais mais comuns em mulheres autistas é justamente o sentimento persistente de não pertencimento. Muitas relatam a sensação de estarem sempre tentando entender regras sociais que parecem naturais para outras pessoas. Conversas, interações, grupos e relações podem exigir um nível de atenção e processamento emocional extremamente desgastante.
Além disso, o chamado mascaramento social, quando a pessoa esconde ou adapta características autistas para ser aceita socialmente, pode gerar consequências importantes para a saúde mental. Sustentar constantemente uma versão de si mesma que parece mais aceitável para os outros costuma produzir cansaço emocional intenso, perda da identidade e aumento dos níveis de ansiedade.
Muitas mulheres com TEA também carregam uma história marcada por críticas, incompreensões e julgamentos. Durante anos podem ter ouvido que eram sensíveis demais, exageradas, difíceis, estranhas ou inadequadas. Com o tempo, essas experiências podem impactar profundamente a autoestima.
Não é raro que desenvolvam uma relação rígida consigo mesmas, cobrando-se excessivamente para corresponder às expectativas externas. Algumas passam a acreditar que precisam estar constantemente se esforçando para merecer aceitação.
Outro aspecto importante é a sobrecarga emocional causada pelos estímulos do ambiente. Sons, luzes, mudanças inesperadas, excesso de demandas sociais e situações imprevisíveis podem gerar um desgaste significativo. Muitas vezes esse sofrimento não é percebido pelos outros porque acontece de forma silenciosa.
Por isso, o cuidado emocional de mulheres com TEA não deve se limitar apenas à compreensão dos aspectos comportamentais do espectro. É fundamental olhar para a experiência subjetiva dessa mulher, suas vivências, suas dores, seus limites e suas necessidades emocionais.
Um exercício simples que pode ajudar no processo de autoconhecimento chama-se “O Que Me Sobrecarrega e O Que Me Fortalece?”.
Pegue uma folha e divida-a em duas colunas.
Na primeira coluna escreva:
Situações que costumam me deixar emocionalmente esgotada.
Liste ambientes, interações, exigências ou circunstâncias que frequentemente aumentam seu nível de estresse, ansiedade ou exaustão.
Na segunda coluna escreva:
Situações que me ajudam a recuperar energia e bem-estar.
Podem ser atividades, ambientes, pessoas, interesses específicos, momentos de silêncio ou qualquer experiência que lhe proporcione conforto emocional.
Ao finalizar, observe os padrões que aparecem. Muitas mulheres passam tanto tempo tentando se adaptar às demandas externas que acabam se afastando da percepção das próprias necessidades. Esse exercício ajuda a desenvolver maior consciência sobre aquilo que favorece equilíbrio emocional e aquilo que gera sobrecarga.
Receber um diagnóstico ou compreender melhor suas características não apaga as dificuldades vividas ao longo da vida. Mas pode trazer algo extremamente importante: compreensão. Muitas mulheres relatam sentir alívio ao perceber que não eram inadequadas ou incapazes. Apenas estavam tentando viver durante anos sem entender completamente a própria forma de funcionar.
O cuidado emocional começa quando a mulher deixa de olhar para si apenas através das expectativas dos outros e passa a construir uma relação mais respeitosa com quem realmente é. Isso inclui reconhecer limites, acolher vulnerabilidades, fortalecer a autoestima e compreender que não existe nada de errado em precisar viver de forma compatível com suas necessidades.
Se você busca recursos para trabalhar autoconhecimento, autoestima, regulação emocional e acolhimento das vivências de mulheres adultas com TEA, conheça o material Ferramentas Terapêuticas para Mulheres Adultas com TEA. O recurso foi desenvolvido para auxiliar reflexões, intervenções terapêuticas e processos de compreensão emocional voltados às experiências frequentemente vividas por mulheres no espectro autista.
Saiba mais em: Ferramentas para Mulheres com TEA
Um abraço,
Suzanne

