Quando a ansiedade visita a infância

É natural imaginar a infância como um período de leveza, descobertas e brincadeiras. No entanto, mesmo as crianças mais alegres podem, em certos momentos, se sentir envolvidas por uma ansiedade que fala por meio de medos, preocupações ou inquietações — e isso não as torna “frágeis” ou “problemáticas”, apenas humanas.
A ansiedade infantil aparece quando a criança experimenta uma sensação de alerta ou desconforto diante de algo que ele ou ela percebe como ameaçador — seja uma mudança, uma exigência nova, o desconhecido ou uma preocupação que se insinua silenciosamente. O importante é saber: não é preciso conviver com isso sozinha.


Por que isso importa?

  • Crianças vivenciam sentimentos complexos, ainda que possuam menos palavras ou recursos para descrever o que sentem.
  • Uma ansiedade não compreendida ou não acolhida pode gerar angústia maior, interferir no sono, no apetite, no comportamento, nas amizades ou no rendimento escolar.
  • Reconhecer e validar o que a criança sente abre espaço para que ela se sinta ouvida, segura e capaz de lidar com seus próprios processos internos.
  • Trabalhar a ansiedade desde cedo não é “transformar a criança em terapeuta”, mas sim dar a ela ferramentas de autorregulação, consciência emocional e vínculo com os adultos que a acompanham.

Como observar — e agir com cuidado

  1. Ficar atento aos sinais
    A criança pode manifestar inquietação, preocupação excessiva, reclamações físicas (como dor de barriga ou cabeça), dificuldades para dormir ou pesadelos, irritabilidade, retraimento, entre outros.
  2. Escuta ativa e linguagem simples
    Perguntar com calma: “O que você está sentindo?” “Quando começou essa sensação?” “O que ajuda você a se sentir mais tranquilo?” Validar: “Entendo que isso possa dar susto/incomodar, obrigada por me contar.”
  3. Nomear o que está acontecendo
    Mesmo que a criança não tenha palavras prontas para ansiedade, ajudar dizendo algo como: “Isso que você está sentindo tem nome: ansiedade. E é algo que a gente pode entender e cuidar junto.”
  4. Cuidar do corpo, das rotinas e dos vínculos
    Há sempre valor nas práticas simples: noite tranquila, tempo para brincar e desconectar, momentos de abraço ou conversa, exercício de respiração ou de imaginar um lugar seguro.
  5. Evitar minimizar ou maximizar demais
    Frases como “Não fique com isso” ou “Você está exagerando” podem gerar culpa ou vergonha. Por outro lado, alarmismos também assustam. Melhor dizer: “Isso está acontecendo. Vamos ver juntos o que ajuda.”
  6. Buscar apoio especializado se necessário
    Quando os sinais persistem ou se intensificam — e começam a atrapalhar bastante o dia-a-dia da criança ou da família — pode ser o momento de contar com o apoio de um profissional de saúde mental infantil.

Criando espaços de cuidado juntos

  • Reserve um momento calmo, talvez após o jantar ou antes de dormir, para conversar.
  • Use linguagem simbólica ou brincadeiras para dar voz ao que está inquietando: “Se esse sentimento fosse um animalzinho, como ele seria?”
  • Incentive a criança a expressar o que ajuda: desenhar, contar uma história, imaginar que o medo vira herói e cresce com o tempo.
  • Celebrar “pequenas vitórias”: levantar da cama, conversar sobre o que sentimos, usar uma respiração quando o coração acelera — reconhecer isso como um avanço.
  • Lembre-se: você como cuidador/a não precisa ter todas as respostas — o que importa é oferecer presença, escuta e segurança.

Um recurso que pode ajudar

Se você está procurando uma ferramenta especialmente elaborada para trabalhar essa temática com crianças de 5 a 12 anos, vale conhecer o material da psicóloga Suzanne Leal: o Baralho Ansiedade Infantil — um recurso terapêutico e psicoeducativo em PDF que ajuda crianças a compreender, nomear e transformar suas experiências com a ansiedade de forma leve, simbólica e acolhedora.
No baralho, as cartas são divididas em categorias como “O que eu sinto”, “Meu corpo fala”, “O que me acalma”, entre outras, favorecendo o diálogo entre criança, terapeuta ou cuidador, promovendo autoestima, autorregulação emocional e empatia.
Para conhecer ou adquirir, você pode conferir no site: Baralho Ansiedade Infantil


Considerações finais

Lidar com a ansiedade infantil não precisa significar “eliminar o medo” ou “ser feliz o tempo todo”. Trata-se de ajudar a criança — e suas redes de apoio — a conviver com o que sente, a dar nome, a buscar alternativas e a perceber que ela não está sozinha.
Oferecer acolhimento, presença e respeito ao universo emocional da criança é um dos maiores presentes que podemos dar. Isso constrói bases seguras para que ela cresça confiando em suas próprias emoções, aprendendo a cuidar de si mesma e a relacionar-se com o mundo de forma mais leve — mesmo quando o coração dispara.
Se você achou esse tema relevante, convido-lhe a compartilhar esse texto ou comentá-lo no blog.

Um abraço,
Suzanne

Publicado por Suzanne Leal

Psicóloga. Site: suzannelealpsi.com Instagram: @suzannelealpsi

Deixe um comentário