É natural imaginar a infância como um período de leveza, descobertas e brincadeiras. No entanto, mesmo as crianças mais alegres podem, em certos momentos, se sentir envolvidas por uma ansiedade que fala por meio de medos, preocupações ou inquietações — e isso não as torna “frágeis” ou “problemáticas”, apenas humanas.
A ansiedade infantil aparece quando a criança experimenta uma sensação de alerta ou desconforto diante de algo que ele ou ela percebe como ameaçador — seja uma mudança, uma exigência nova, o desconhecido ou uma preocupação que se insinua silenciosamente. O importante é saber: não é preciso conviver com isso sozinha.
Por que isso importa?
- Crianças vivenciam sentimentos complexos, ainda que possuam menos palavras ou recursos para descrever o que sentem.
- Uma ansiedade não compreendida ou não acolhida pode gerar angústia maior, interferir no sono, no apetite, no comportamento, nas amizades ou no rendimento escolar.
- Reconhecer e validar o que a criança sente abre espaço para que ela se sinta ouvida, segura e capaz de lidar com seus próprios processos internos.
- Trabalhar a ansiedade desde cedo não é “transformar a criança em terapeuta”, mas sim dar a ela ferramentas de autorregulação, consciência emocional e vínculo com os adultos que a acompanham.
Como observar — e agir com cuidado
- Ficar atento aos sinais
A criança pode manifestar inquietação, preocupação excessiva, reclamações físicas (como dor de barriga ou cabeça), dificuldades para dormir ou pesadelos, irritabilidade, retraimento, entre outros. - Escuta ativa e linguagem simples
Perguntar com calma: “O que você está sentindo?” “Quando começou essa sensação?” “O que ajuda você a se sentir mais tranquilo?” Validar: “Entendo que isso possa dar susto/incomodar, obrigada por me contar.” - Nomear o que está acontecendo
Mesmo que a criança não tenha palavras prontas para ansiedade, ajudar dizendo algo como: “Isso que você está sentindo tem nome: ansiedade. E é algo que a gente pode entender e cuidar junto.” - Cuidar do corpo, das rotinas e dos vínculos
Há sempre valor nas práticas simples: noite tranquila, tempo para brincar e desconectar, momentos de abraço ou conversa, exercício de respiração ou de imaginar um lugar seguro. - Evitar minimizar ou maximizar demais
Frases como “Não fique com isso” ou “Você está exagerando” podem gerar culpa ou vergonha. Por outro lado, alarmismos também assustam. Melhor dizer: “Isso está acontecendo. Vamos ver juntos o que ajuda.” - Buscar apoio especializado se necessário
Quando os sinais persistem ou se intensificam — e começam a atrapalhar bastante o dia-a-dia da criança ou da família — pode ser o momento de contar com o apoio de um profissional de saúde mental infantil.
Criando espaços de cuidado juntos
- Reserve um momento calmo, talvez após o jantar ou antes de dormir, para conversar.
- Use linguagem simbólica ou brincadeiras para dar voz ao que está inquietando: “Se esse sentimento fosse um animalzinho, como ele seria?”
- Incentive a criança a expressar o que ajuda: desenhar, contar uma história, imaginar que o medo vira herói e cresce com o tempo.
- Celebrar “pequenas vitórias”: levantar da cama, conversar sobre o que sentimos, usar uma respiração quando o coração acelera — reconhecer isso como um avanço.
- Lembre-se: você como cuidador/a não precisa ter todas as respostas — o que importa é oferecer presença, escuta e segurança.
Um recurso que pode ajudar
Se você está procurando uma ferramenta especialmente elaborada para trabalhar essa temática com crianças de 5 a 12 anos, vale conhecer o material da psicóloga Suzanne Leal: o Baralho Ansiedade Infantil — um recurso terapêutico e psicoeducativo em PDF que ajuda crianças a compreender, nomear e transformar suas experiências com a ansiedade de forma leve, simbólica e acolhedora.
No baralho, as cartas são divididas em categorias como “O que eu sinto”, “Meu corpo fala”, “O que me acalma”, entre outras, favorecendo o diálogo entre criança, terapeuta ou cuidador, promovendo autoestima, autorregulação emocional e empatia.
Para conhecer ou adquirir, você pode conferir no site: Baralho Ansiedade Infantil
Considerações finais
Lidar com a ansiedade infantil não precisa significar “eliminar o medo” ou “ser feliz o tempo todo”. Trata-se de ajudar a criança — e suas redes de apoio — a conviver com o que sente, a dar nome, a buscar alternativas e a perceber que ela não está sozinha.
Oferecer acolhimento, presença e respeito ao universo emocional da criança é um dos maiores presentes que podemos dar. Isso constrói bases seguras para que ela cresça confiando em suas próprias emoções, aprendendo a cuidar de si mesma e a relacionar-se com o mundo de forma mais leve — mesmo quando o coração dispara.
Se você achou esse tema relevante, convido-lhe a compartilhar esse texto ou comentá-lo no blog.
Um abraço,
Suzanne

